Vamos falar sobre... liberdade, liberalidade e libertinagem...
 
Você casualmente poderá achar que a palavra libertinagem envolva conceitos morais ultrapassados, algo que nos remeta aos nossos avós. Será? Vamos pensar juntos? Haverá, afinal, alguma diferença entre moral e moralismo? O que significam essas palavras?
 
Então vamos lá! Um nadinha de história, apenas um grão. Pois bem. Diante do tempo estimado desde que o homem surgiu na Terra (1.000.000 de anos), o que temos reportado - e que chamamos história - é ínfimo. O que está por trás dos últimos cinco mil anos se perdeu na escuridão da noite dos tempos. Não temos, portanto, um registro razoável de nosso passado. Apenas algumas pistas - muitas delas enganadoras, dúbias, na medida em que nos debruçamos sobre o passado mais distante... Vamos então nos ater ao que temos. Nem mesmo precisaremos voltar muito...
 
A humanidade até aqui viveu por "mentalidades". Algo relativamente universal e que veio ocupando faixas de tempo sucessivas. As mudanças foram sempre lentas - dentro do período registrado de cinco mil anos. Nem mesmo precisaremos, de fato, ir muito longe...
 
Até meados dos anos 60, só para dar um exemplo, o sistema de transportes parava completamente aos domingos nas cidades canadenses. Era o "dia do Senhor". E isto só foi mudado porque alguém se deu conta de que as pessoas precisavam tomar um ônibus - ou o metrô - para ir às igrejas, louvar o Senhor... Também, até esta época, uma mulher que tivesse o seu casamento desfeito era marcada como uma "separada", em inúmeras sociedades ocidentais, sendo vítima de preconceitos e discriminações severas por parte dos seus contemporâneos.
 
Sofrimento. Dor. Covardia. Coisas que exigiam mesmo mudanças, libertação, liberalização. A luta foi empolgante, uma verdadeira festa. Quem diria, há tão pouco tempo, um cidadão negro era proibido de utilizar os mesmos banheiros ou restaurantes que os brancos nos EUA... Em termos de história universal, isto ocorreu até meio minuto atrás... Faz muito pouco tempo. Tão pouco tempo que ainda sentimos o ranço deste passado: não há muito, a cantora Dione Warwick foi presa e importunada porque trazia consigo um cigarrinho de maconha... Não conseguimos de todo mudar a mentalidade tacanha, embrutecida, burra - que parece ser inerente a nós: endógena e residual... Por outro lado, o que fizemos nós com a liberdade que já conquistamos? De que maneira usufruímos dela?
 
Você gosta de sexo? Eu gosto. Com amor? É muito bom. E sem amor? Olhe, não chega a ser de todo ruim... vai muito da pessoa... é coisa que está subordinada ao nosso íntimo, depende de cada um. E seria condenável o sexo sem amor? O desejo poligâmico é crime? Seria um sinal de inconsistência afetiva? Será? Eu acho que não.
 
Liberdade. Liberdade de poder ser aquilo que se deseja, no fundo do nosso íntimo. Com responsabilidade, com consciência. Vem daí, com toda a certeza, um sabor raro, especial - daquilo que nos é dado saborear com certa facilidade e freqüência no transcorrer de nossa breve existência. E, se o lugar onde estamos nos nega tanto e tanto, não é necessário que nós mesmos coloquemos impedimentos sem propósito algum para alcançar algum prazer saudável e que, afinal, está ao nosso alcance... Em suma: liberdade é bom e eu gosto. Mas... o que é libertinagem?
 
Você gostou da mulher que coloquei na foto aqui da página? Bonita, não é mesmo? Ela ficaria com você? Comigo? Com ela mesma, sequer? Ela é uma mulher ou um produto? Um produto sexual? Ela não escandaliza ninguém. Está nua e, mesmo assim, não chega a empolgar de verdade - e são tantas, tantas assim... Por que celebrar entre multidões aquilo que é e sempre foi eminentemente uma coisa tão íntima? Qual o propósito disto? Será que a sociedade - que promove este comportamento - tem consciência do que é vulgarizar um corpo de mulher? Qual é o intuito de tudo isto? Promover uma espécie de sonho, de sonho de consumo, a partir de um corpo desejável e que não está acessível, disponível, para qualquer um de nós? E depois? Compra-se a revista? Vê-se a novela? Mas para quê? Se uma mulher de carne e osso, aquela mulher que é a conquistada, a conseguida, por mais desprovida de excessos que seja, nos sabe tão melhor?
 
Somente a ganância, a produtização da mulher pode explicar este açougue de carne exposta: inútil, patético, amoral. Só mesmo uma sociedade que já traz em seu bojo os estertores esquizofrênicos de seu próprio fim, arremessa uma atriz semi-pornô diretamente das páginas de revistas masculinas para o trabalho de apascentar (e idiotizar) crianças pequenas diante de um aparelho de televisão. Pense nisso: como chegamos e este grau de idiotia?
 
Na foto, o tapa-sexo da mulher-produto caiu. Deve ter sido um truque publicitário. Ela não parece ter pressa em recuperar o objeto do chão. Depois, ela deve ter assinado mais alguns contratos bons. E depois, ainda, ela notará que seus compromissos não lhe deixam tempo para ter uma vida normal, com sexo, inclusive. Provavelmente ela se queixará disso um dia, numa entrevista para uma revista qualquer... É assim. Isto acontece.
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