Despertar: um conto em três dimensões desordenadas...
 

Só depois lembrei do hospital. Bem depois. E foi lembrança rápida, embora daquelas intensas, que trazem consigo os aromas e as dores. Mas isto foi bem depois.

Primeiro veio a lembrança daquela manhã. Ventava alto, lá pelas copas das árvores. No chão, nada se movia. Manhã amena, coisa de abril ou maio talvez. E o silêncio.

A folhagem verde-nova brilhando antes do céu, azul puríssimo, sideral, bem ali acima do
campinho - um terreno abandonado onde despejavam o lixo.

E a mosca. Foi ela, quase parada em seu vôo, brilhando verde-metálica, quem me despertou. Olhei o céu e vi o vento, nas folhas largas da amendoeira grande. E alto, altíssimo, o azul. Então foi que senti: estou acordado.

Mas agora me chamam e preciso ir. Talvez seja minha mãe. Tenho de ir e viver a vida. Afinal, ainda não completei três anos de idade, dois e pouco, parece.

Se cada despertar é um milagre, uma ressurreição, o primeiro deles, o despertar da consciência é uma ressurreição de fato. É a maior de todas as lembranças. Vive-se sessenta, noventa e poucos anos. Ou dez. Uns acham pouco, outros demasiado... Momentos de quase glória e de ruína; lembranças, esquecimentos... E o mais de tudo, loucamente, - aquilo que volta sem ser chamado - é, quase sempre, um momento que parece estúpido, insignificante em si.

O menino cresceu, vingou como a erva daninha num pasto, que apesar de cortada, arrancada, ninguém extingue toda. E, resistindo aos cortes, no pé, no coração, viveu. Varou o mundo-largo, mas também cumpriu as longas e penosas sentenças do tédio. Não há escolha. Nenhuma. Acontece.

Outra vez despertei. Já não era um menino. Pelo contrário, um homem velho e doente. Exausto.
Me lembro que era noite e que era tarde. O hospital, os cheiros. Meu peito doía forte e por causa da dor eu tinha a visão turvada por uma névoa seca. Ainda assim não pude deixar de notar uma criança clara, uma menina loura, que tinha os cabelos empapados em sangue e que partiu pouco depois de ter sido colocada ao meu lado, numa maca.

Não sei o tempo e o lugar. Isto não tem importância. Não havia luz elétrica e a penumbra passava à escuridão - em alguns pontos daquilo que parecia ser um grande quarto. A dor, ela mesma, foi me aliviando, colocando-me num estado de quase insensibilidade física. Mas o pensamento pulsava; o medo foi se transformando numa espécie de indiferença. À minha volta havia uma movimentação apressada de pessoas sem rosto. Depois, um cantinho da sala, onde a treva era densa, foi crescendo e espalhou-se - até tomar tudo. Então, acho que esqueci de mim.

Somente fui me lembrar, novamente, sob a amendoeira grande, encantado com as cores daquela mosca metálica que brilhava ao Sol.

Não tive sonhos e de outras coisas não lembro. A Morte não explica nada.

 

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